“Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).

Recentemente ouvi esse trecho de duas mediadoras diferentes, em ocasiões distintas. Ele descreve de forma magistral um dos principais elementos geradores do conflito: o fato de que, para cada um dos envolvidos em determinada situação, a verdade é uma. Como diz Pessoa, não se trata sequer de duas versões ou de dois ângulos diferentes, mas sim de duas verdades mesmo.

Foi isso o que primeiro me despertou para a mediação: eu já não advogava havia alguns anos e refletia sobre as minhas qualidades – e deficiências – como advogada, sobre meus talentos e habilidades. Pensava que teria dificuldades em voltar a advogar no contencioso, pois já não me via defendendo um cliente com unhas e dentes, expondo as suas “verdades únicas” e rechaçando tudo o que viesse da outra parte, armando-me para a guerra diária. Sentia o mesmo como negociadora, pois, nesse ambiente de confronto, algumas vezes questionei a minha competência, por não buscar tirar o máximo de proveito para o meu cliente – saindo, assim, “vencedora” –, mas sim procurar obter da negociação o que fosse justo para ambas as partes.

Tanto na minha vida profissional quanto na pessoal, eu estava constantemente percebendo o outro lado, ponderando com meu interlocutor que o outro também tinha os seus motivos, a sua visão e mesmo os seus direitos. Sem a clareza ou a eloquência de Fernando Pessoa, de certa forma eu notava a “dupla existência da verdade”.

Ao me tornar mediadora, comecei a perceber isso de forma mais clara. O que posso dizer hoje é que tenho imensa satisfação quando consigo ajudar os mediandos a se compreenderem; quando, ao longo do processo de mediação, eles começam a se colocar no lugar um do outro e perceber que o outro pode ter visões, interesses e sentimentos tão legítimos quanto os seus, embora diferentes; que nem sempre existe o certo e o errado, o aceitável e o inaceitável. Ao se darem conta disso, surge a possibilidade de conciliarem esses interesses distintos, pois não partem mais da premissa de que o outro está “errado”, mas veem que para ele a verdade é simplesmente outra. Podem, assim, criar soluções aceitáveis para ambos, mais satisfatórias do que o confronto e o litígio.